Estava no trem a caminho do dentista. Aos poucos fui entregue aos devaneios enquanto observava a paisagem correr através da janela e era acomodada pelo sacolejar intenso.
Pensei em como a vida é curta e o quão o mundo é grande. Como nós humanos comuns somos pequenos não importava quanta riqueza adquirimos pois ninguém pode evitar a morte.
Quantas pessoas já nasceram e morreram durante nossa existência? Quantas não completam seu ciclo enquanto estou aqui escrevedo? É um contingente tão imenso que não posso imaginar. Porém, essas pessoas, boas ou más, não tiveram o mínimo significado para você ou para mim. Nem se quer sabemos como elas eram, o que sentiam ou se existiram.
Foi então que percebi nossa fragilidade. É jogar alto pensar que viveremos 90 anos e é duro aceitar que um dia teremos que partir. Deceremos na estação do fim da vida sem saber onde estamos ou o que faremos.
Porém, uma vez me disseram que não é preciso estar materializado em carne e osso para estar vivo. Basta sua memória estar ainda ativa no coração de alguém. Se assim for, Cleopatra, Beethoven e Hitler nunca descansarão em paz!
Mas e quanto a nós, cidadãos que diariamente deixam suas famílias para trabalhar e cruzam centenas de pessoas sem rosto todos os dias? Como seremos lembrados? Será que seremos mesmo? Não tenho tanta certeza disso quando penso que não sei o nome de meus tataravós e pouco me recordo os dos meus bisavós.Observei uma senhora vestida de uma saia preta e um casaco vermelho. Em suas mão enrugadas havia um guarda-chuva muito velho. Provavelmente ele acompanhara boa parte de sua jornada que em breve acabaria. Será que os netos dela sabem suas histórias de infância? Será que já lhe perguntaram o nome de seus pais, tios e de quem quer que ela lembre? Como será que ela se sente ao pensar que logo terá que descer deste trem? O trem da vida.
Imaginei-me já muito idosa com meus filhos, netos e sobrinhos. Queria fazer parte da vida deles. Viver o suficiente para ver minha netinha se casar. Ou meu bisneto ir pela primeira vez à escola. Queria acompanha-los em suas dificuldades e alegrias para sempre. Geração por geração. Mas isso, é claro, não será possível.
É um grande feito ultrapassar a barreira dos comuns e ser lembrado até a quarta geração pelo menos. Para tanto é preciso fazer a diferença, não ser só mais um passageiro. É preciso deixar marcas, mas não qualquer uma: marcas boas, pois é realmente vergonhoso desonrar sua família, como Hitler fez. É certo que ele influenciou a história, mas de uma forma horrível. Sendo assim é melhor ser esquecido logo na segunda geração.
Acredito que primeiramente devemos mostrar que amamos nossos familiares e amigos. Devemos ajudá-los não importando se sua imagem é boa ou ruim. Se ganharemos algo em troca ou não. Se a sociedade os valoriza ou não. Só assim poderemos mostrar que somos diferentes do comum. Nem que seja somente para aquelas pessoas, somos especiais. Eles não deixarão nossa memória morrer. Permaneceremos em seus corações.
Notei que todos estavam levantando. A estação final já estava a poucos metros. Quando as portas se abriram e saimos, foi como um ritual. Chegamos em nosso destino. Não impotava se éramos só mais um passageiro ou O passageiro. Tínhamos chegado, após sermos o espermatozóide que entre milhões conseguiu entrar no óvulo. Somos vencedores e estamos todos embarcados nessa viagem: a vida.
Por Susanna


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