quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tão distante...

Pode parecer estranho, mas todas as lembranças que tenho da minha infância não parecem reais. Elas parecem turvas, como se fossem somente um sonho, ou um filme há muito esquecido e cuja fita-cassete está velha.
Tudo parecia tão grande, as ruas pareciam infinitas. O tempo nunca passava, como se a vida fosse esterna. Lembro de que as aulas da pré-escola eram divertidas, tudo o que tinhámos que fazer era colorir, brincar com massa de modelar ou então plantar feijões em copinhos com algodão. Frustada eu fiquei pois meu feijão não crescia, era amarelado e torto. Hoje rio de como invejava o da minha amiga, que era de um verde vivo, reto e enorme. Era comum também eu querer demonstrar o quanto eu havia aprendido na escola para minha mãe. Feliz, eu pintava as paredes brancas da casa com tinta guache pensando em como ela ficaria orgulhosa. E nunca entendia porque ela se zangava tanto...
Ás vezes ocorria um evento que deixava a vida turbulenta, era um fenômeno para uma criança de cinco anos: a chuva. O céu  repentinamente  escurecia, nuvens de breu poderosas ocupavam o antes azul céu. Grandes gotas caiam no pátio. Para fugirmos desse "monstro", na hora de ir para casa a monitora do transporte escolar trazia grandes guarda-chuvas pretos que abrigavam até cinco crianças. Dia de festa mesmo era quando estava frio e a choviam "gelinhos".
As vinte crianças com seus olhinhos colados nos vidros pensavam que só faltava nevar. Mas isso, para decepção delas, nunca ocorreu aqui em São Paulo.
Quem morre de medo de chuva é a Lulu: a coitada late sem parar e se esconde embaixo da cama da minha mãe. Dona Lucilei, como a maioria das mães, fica horrorizada por um cão estar dentro de seu quarto e logo a expulsa.
Ainda pequena, eu adorava ir à praia. Lambuzava-me de areia molhada, pulava sobre as ondas pensando que eu era uma sereia. Minha mãe conta que não sossegava enquanto não encontrava uma "amiguinha". Eu chorava e assim dona Lucilei partia pela praia procurando uma garotinha de quantro anos para brincar comigo. 
Nos restaurantes eu fazia a mesma coisa. Porém mamãe negava-se a atrapalhar as pessoas "jantando em paz " como dizia. Eu porém, como um anjinho, não me incomodava nem um pouco com o olhar zangado dos adultos e sempre dava um jeitinho de encontrar uma companheira para minhas aventuras. Corríamos feito onças pelos corredores entre as mesas e os garçons quase derrubavam suas bandeijas repletas de pratos.
Só nos preocupavamos em brincar. Mas também havia a grande responsabilidade, algo que parecia custar nossa via: lição de casa. Acho que como eu, a maioria das crianças temia não terminar as tarefas e entregá-las, pois isso sempre era sucedido por uma bronca da professora. Pobres pequenos, cada palavra que compunha a advertência custavá-nos mais uma gota de suor frio e um horrível constrangimento.
O pior era quando eu tinha dúvidas e minha mãe tentava me explicar do jeito dela. Eu, teimosa como sou, chorava dizendo que não "era assim que minha professora tinha explicado! Está errado!".Era muito nova para saber que há diversas formas para entender a mesma coisa. Reconheço que é muito difícil ter a paciencia de uma mãe. E agora, como se Deus quisesse que eu pagasse meus pecados, sinto na pele o que é explicar algo para alguém cabeça-dura como meu irmão Paulinho.
Eles está naquela fase entre os seis e os doze anos, quando a criança fica insuportável e chora para tudo. Sem mencionar que ele me dedura sempre que pode, principalmente na hora do jantar em família, para todos saberem do meu vexame. O"demoniozinho" ainda olha para mim com aquele sorrizinho que significa "te peguei!" e fala ao ver minhas bochechas corando: "Aaa, Mari... Você ficou triste? Eu não sabia que não podia contar..."
A Deus... Dai-me paciência!!!
                                                                                                          De: Susanna

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